Uma avenida interditada por 30 dias parece, à primeira vista, apenas mais um transtorno no trânsito. Mas a obra na Avenida Espírito Santo revela um problema maior: a infraestrutura que a cidade não vê também precisa acompanhar a cidade que cresceu.
A partir desta terça-feira (6), um trecho da Avenida Espírito Santo, no Bairro dos Estados, será interditado para a substituição de uma rede de esgoto danificada.
O bloqueio acontece entre as ruas Professora Eudésia Vieira e Desportista Aurélio Rocha, nas proximidades da Vila Olímpica Parahyba. A previsão é de aproximadamente 30 dias de obras.
Para quem passa por ali diariamente, significa desvio, mudança de rota e, dependendo do horário, mais alguns minutos — ou muito mais — no deslocamento.
Mas o ponto mais importante está em outro lugar.
Debaixo da rua.
A cidade cresce por cima. A infraestrutura precisa crescer por baixo.
João Pessoa mudou de tamanho, de fluxo e de densidade.
Novos prédios surgiram. Mais pessoas passaram a circular. O número de veículos aumentou. Novos bairros ganharam moradores e antigas áreas passaram a suportar uma demanda muito maior.
Só que existe uma parte da cidade que não aparece nas fotografias.
São quilômetros de tubulações, galerias, redes de esgoto, drenagem e abastecimento.
Quando essa infraestrutura envelhece ou deixa de acompanhar o crescimento urbano, o problema eventualmente chega à superfície.
Desta vez, chegou na Avenida Espírito Santo.
E, paradoxalmente, uma obra que provoca transtorno também pode ser sinal de que um problema está sendo corrigido antes de se transformar em algo ainda maior.
O problema é quando a manutenção chega tarde
É aqui que João Pessoa precisa olhar além do trânsito desta terça-feira.
Substituir uma rede de esgoto danificada é necessário.
Mas a pergunta que interessa ao cidadão é:
quantas outras redes estão chegando ao limite sem que o problema ainda tenha aparecido?
A lógica da infraestrutura urbana é ingrata.
Quando tudo funciona, ninguém percebe.
Quando quebra, todo mundo percebe.
E a conta costuma ser maior.
Uma tubulação pode parecer um problema técnico da Cagepa. Mas uma falha de infraestrutura pode provocar interdição de rua, congestionamento, prejuízo para comércio, alteração de linhas de transporte, desgaste do pavimento e transtorno para milhares de pessoas.
Ou seja:
o problema começa embaixo da terra, mas a conta aparece na superfície.
O desvio será pela Avenida Mato Grosso
Durante a interdição, os motoristas que estiverem na Avenida Espírito Santo deverão acessar a Rua Desportista Aurélio Rocha, depois seguir para a Avenida Mato Grosso.
A partir dali, será possível continuar pela própria avenida ou acessar a Rua Rondônia e retornar posteriormente à Avenida Espírito Santo.
A Semob-JP informou que agentes estarão em pontos estratégicos para orientar o trânsito durante os trabalhos.
É uma operação relativamente simples no mapa.
Mas trânsito não acontece no mapa.
Acontece às 7h30 da manhã.
Às 12h.
Às 17h30.
E é justamente nesses horários que uma pequena alteração em uma via pode produzir efeitos em várias outras.
O desafio não é apenas terminar. É terminar no prazo.
Trinta dias é a previsão anunciada para a obra.
E aqui existe uma cobrança legítima que independe de ideologia, governo ou política:
se a cidade vai suportar 30 dias de transtorno, que a obra não vire 60.
Obras de infraestrutura precisam ser acompanhadas não apenas pela sua necessidade, mas também pela sua execução.
O cidadão aceita o transtorno quando entende que existe uma solução.
O que desgasta é quando o buraco permanece, a sinalização muda, o prazo se estende e ninguém consegue explicar exatamente quando aquilo vai acabar.
João Pessoa precisa discutir a cidade que não aparece
Existe uma João Pessoa turística.
Existe a João Pessoa das praias, dos parques, dos novos prédios e dos grandes investimentos.
E existe uma outra cidade.
A cidade que está debaixo dos nossos pés.
É nela que estão as redes que sustentam o crescimento urbano.
E quanto mais a cidade cresce, mais importante fica discutir aquilo que não aparece nas propagandas.
Água.
Esgoto.
Drenagem.
Pavimentação.
Galerias.
Mobilidade.
Manutenção.
Porque uma cidade não é sustentável apenas quando constrói algo novo.
Uma cidade madura é aquela que consegue manter funcionando aquilo que já construiu.
A interdição da Avenida Espírito Santo, portanto, é mais do que uma notícia sobre um desvio de trânsito.
É um lembrete.
João Pessoa está crescendo. A pergunta é se sua infraestrutura está crescendo no mesmo ritmo.



























