Senador viajou com mulher e filhas em jato cuja propriedade incluía empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio; PF encontrou ainda uma segunda reserva no mesmo avião
A relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ganhou nesta quinta-feira (24) um novo elemento: documentos e registros analisados pela Polícia Federal e pela revista piauí mostram que o senador viajou, em janeiro de 2025, em um jatinho cuja propriedade incluía uma empresa da qual Vorcaro era sócio.
Não se trata de uma hipótese sobre a identidade da aeronave. A reportagem da piauí cruzou registros de tráfego aéreo, dados aeroportuários e o Registro Aeronáutico Brasileiro e identificou o avião utilizado pelo senador.
Era um Legacy 650, de prefixo PP-NLR, que fez o trajeto entre Fort Lauderdale, na Flórida, e Brasília em 19 de janeiro de 2025. A data coincide com o voo de Flávio identificado anteriormente pela Polícia Federal.
A viagem foi feita por Flávio, sua mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal. Também estava a bordo o advogado Willer Tomaz, amigo do senador e proprietário de uma das três cotas da aeronave.
Onde entra Vorcaro
A estrutura de propriedade do avião é o ponto central da história.
O jato era formalmente registrado em nome da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., sociedade criada para concentrar a propriedade compartilhada da aeronave.
Uma das três cotas pertencia a Willer Tomaz. Outra era de Laércio Cosentino, fundador da TOTVS. A terceira havia pertencido ao empresário Gabriel Szlezynger Lacerda e foi adquirida, no fim de 2024, pela Prime You.
E a Prime You não era uma empresa qualquer no contexto da investigação.
Segundo informações da própria companhia, Daniel Vorcaro foi sócio da Prime You entre 2021 e setembro de 2025. A empresa também operava o Legacy 650 por meio da Prime Aviation.
Ou seja: quando Flávio utilizou o avião, em janeiro de 2025, uma empresa que tinha Vorcaro como sócio possuía um terço da aeronave e participava da administração operacional do jato.
O mesmo avião usado por Alexandre de Moraes
A história ganhou uma camada adicional porque o PP-NLR é o mesmo avião no qual o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, foi filmado desembarcando em agosto de 2025.
O episódio foi revelado anteriormente pelo jornal O Globo.
O detalhe não é apenas uma coincidência aeronáutica.
Depois que as imagens de Moraes no avião vieram a público, Flávio Bolsonaro passou a atacar publicamente o ministro por ter utilizado a aeronave.
Agora, os registros mostram que o próprio Flávio havia viajado no mesmo jato meses antes.
PF encontra uma segunda reserva
E há mais.
Nesta quinta-feira, o jornal O Globo revelou que a Polícia Federal encontrou no celular de Willer Tomaz uma reserva de voo de janeiro de 2024 que incluía Flávio, sua mulher e as duas filhas do casal no mesmo Legacy 650, de prefixo PP-NLR.
Há, porém, uma diferença fundamental: segundo os registros analisados pelos investigadores, esse voo de 2024 não ocorreu nas condições previstas na reserva.
Portanto, a reserva comprova que uma viagem foi programada, mas não que Flávio tenha efetivamente embarcado naquela ocasião.
É justamente essa distinção que separa o que está documentado do que ainda precisa ser esclarecido.
A relação não termina no avião
A aeronave é apenas uma parte de uma rede de relações que vem sendo reconstruída pelas investigações.
Flávio e Willer Tomaz fizeram outras viagens juntos. Segundo os registros citados pela piauí, os dois também viajaram para a África do Sul em março de 2025. Tomaz ainda disponibilizou um imóvel ligado à sua estrutura empresarial para uso de Flávio durante a campanha presidencial deste ano.
Outro ponto revelado pela piauí é que Flávio utilizou, durante a campanha em São Paulo, um apartamento que havia sido comprado pela empresa de Tomaz de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
Há ainda o episódio da mansão em Angra dos Reis onde Flávio comemorou, em fevereiro deste ano, o aniversário da filha. O imóvel é administrado pela Prime You e uma das cotas pertence a uma empresa de Willer Tomaz. O advogado afirmou que emprestou a propriedade ao senador.
E o financiamento de “Dark Horse”?
A viagem de janeiro de 2025 ocorreu em um momento particularmente sensível.
Segundo a piauí, naquele período havia negociações envolvendo Daniel Vorcaro e o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O cronograma previa um primeiro aporte de US$ 2 milhões em 20 de janeiro de 2025 — justamente no dia seguinte ao desembarque de Flávio em Brasília.
No dia 20, Flávio enviou mensagem a um intermediário das negociações cobrando uma resposta sobre o investimento. O primeiro aporte, entretanto, só foi efetivado em fevereiro.
A Polícia Federal investiga o caminho dos recursos destinados ao financiamento.
Flávio nega?
O senador e sua defesa não responderam aos pedidos de entrevista da piauí sobre a viagem. A defesa de Daniel Vorcaro também não respondeu.
Willer Tomaz confirmou que possuía uma das três cotas do avião. Disse, porém, que só tomou conhecimento em abril de 2026 de que Vorcaro também havia adquirido participação na aeronave.
Segundo Tomaz, ele oferecia lugares disponíveis no avião a amigos como uma “carona”, sem cobrança ou contrapartida. Ele também afirma que não conhece Vorcaro e que jamais fez negócios com ele.
O que está comprovado — e o que ainda não está
Há uma diferença importante entre proximidade documentada e irregularidade comprovada.
Está documentado que Flávio Bolsonaro viajou em janeiro de 2025 no PP-NLR. Também está documentado que uma empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio possuía uma das cotas do avião e participava de sua operação.
Também existem registros de outras relações entre Flávio, Willer Tomaz, imóveis e empresas que aparecem no entorno de Vorcaro.
O que esses fatos não comprovam, por si só, é que Flávio tenha recebido qualquer vantagem indevida de Vorcaro ou que tenha cometido alguma irregularidade.
É justamente essa distância entre a conexão documentada e aquilo que ainda precisa ser explicado que coloca a viagem no radar das investigações.
E há uma pergunta inevitável que agora ganha peso político: por que um candidato à Presidência da República viajou com a família em uma aeronave cuja estrutura de propriedade incluía uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro — e o que, exatamente, estava por trás dessa proximidade?
A resposta, até aqui, ainda não está completamente dada.




























