A vice de Lucas e o erro de estratégia dos Ribeiro

A escolha de Lígia Feliciano para ser vice de Lucas Ribeiro encerrou uma das mais longas e tumultuadas novelas da pré-campanha para o Governo da Paraíba.

E talvez seja justamente a forma como essa escolha aconteceu que explique o seu maior problema.

Lígia é experiente. Já ocupou a vice-governadoria por duas vezes: foi eleita em 2014 na chapa de Ricardo Coutinho e novamente em 2018, desta vez ao lado de João Azevêdo.

Ninguém pode dizer, portanto, que lhe falta experiência política ou conhecimento da máquina pública.

Mas uma eleição majoritária não se ganha apenas com experiência.

Ganha-se com votos, território e capacidade de ampliar uma candidatura.

E é justamente nesses três pontos que a escolha de Lígia merece ser questionada.

A pergunta que deveria orientar a escolha de um vice

A pergunta mais importante para qualquer candidato a governador ao escolher seu vice deveria ser simples:

“O que esse nome acrescenta à minha candidatura que eu ainda não tenho?”

No caso de Lucas Ribeiro, a resposta não parece tão evidente.

Lígia é de Campina Grande.

Lucas Ribeiro é de Campina Grande.

A família Ribeiro possui uma das suas principais bases políticas em Campina Grande.

A família Feliciano também construiu sua trajetória política a partir de Campina Grande.

Ou seja: em vez de buscar um nome capaz de abrir uma nova frente eleitoral, a chapa acabou escolhendo alguém cuja principal referência territorial está justamente em uma região onde os Ribeiro já possuem presença política.

E isso acontece enquanto o principal desafio eleitoral de Lucas está, em boa medida, em outro lugar.

João Pessoa.

O erro de olhar para Campina quando a disputa exige João Pessoa

Os números eleitorais tornam essa escolha ainda mais difícil de compreender.

João Pessoa é, de longe, o maior colégio eleitoral da Paraíba. Em 2026, a capital tem 585.279 eleitores, enquanto Campina Grande possui 304.181.

A diferença é de mais de 281 mil eleitores.

Em termos práticos, João Pessoa possui quase o dobro do eleitorado de Campina Grande.

E quem está fortemente estabelecido na capital?

Cícero Lucena.

O prefeito de João Pessoa foi reeleito em 2024 com 258.727 votos, ou 63,91% dos votos válidos no segundo turno.

Portanto, se o objetivo de Lucas Ribeiro era montar uma chapa eleitoralmente eficiente, havia uma lógica bastante clara: procurar alguém capaz de penetrar na capital e na Grande João Pessoa, reduzindo a vantagem territorial de Cícero Lucena.

Mas a escolha foi exatamente na direção oposta.

Foi para Campina.

É uma decisão que pode ser compreendida pela lógica interna da política, mas é difícil defendê-la pela lógica da expansão eleitoral.

Lígia Feliciano pode até resolver a crise interna da chapa. O problema é que ela parece acrescentar pouco ao projeto eleitoral de Lucas Ribeiro — e ainda reforça a impressão de que a eleição de 2026 está sendo pensada sob a sombra de 2030

O caso Damião mostra o problema

É importante fazer justiça a Damião Feliciano, O deputado federal não é um político pequeno!

Em 2022, foi reeleito para a Câmara dos Deputados com 64.023 votos, ficando entre os 12 deputados federais eleitos pela Paraíba.

Sua trajetória é longa. Foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1998 e voltou à Câmara em diferentes eleições desde então.

O problema, portanto, não é dizer que Damião não possui força política.

O problema é perguntar:

quanto dessa força está efetivamente concentrada em Campina Grande?

E essa é uma distinção importante.

Damião possui uma votação estadual que lhe permite sobreviver eleitoralmente há décadas. Mas a força política dos Felicianos em Campina não parece, hoje, suficiente para justificar uma operação estratégica que escolha Lígia como instrumento de conquista do segundo maior colégio eleitoral do Estado.

Uma pesquisa eleitoral divulgada em 2025, por exemplo, mostrou Romero Rodrigues com 30,08% das intenções de voto para deputado federal em Campina Grande, Jhony Bezerra com 23,35% e Damião Feliciano com 4,23%.

É evidente que pesquisa de intenção de voto não pode ser confundida com resultado eleitoral. Mas ela oferece uma fotografia da percepção política daquele momento.

E a fotografia não mostra os Felicianos como uma força dominante em Campina Grande.

O que Lucas deixa de ganhar

Esse é o ponto central.

Quando Lucas escolhe Lígia, ele não está apenas escolhendo uma mulher experiente para ser sua vice.

Ele está deixando de escolher outra pessoa.

E esse custo de oportunidade precisa entrar na conta.

Havia nomes capazes de cumprir funções diferentes.

Um nome de João Pessoa poderia aproximar a chapa da capital.

Um nome de uma região do Sertão poderia ampliar a presença no interior.

Uma liderança feminina com forte inserção social poderia agregar eleitorado independente.

Um nome de centro poderia reduzir a resistência em determinados segmentos.

A escolha de Lígia, porém, entrega sobretudo experiência e acomodação política.

E não necessariamente novos votos.

A experiência que também carrega um passivo

Há ainda uma questão política que não pode ser apagada da memória eleitoral.

Lígia já esteve exatamente na posição de vice-governadora e, em 2021, rompeu politicamente com o grupo de João Azevêdo.

Em dezembro daquele ano, ainda ocupando a vice-governadoria, ela publicou um vídeo em que afirmou:

“Hoje a Paraíba é uma mulher sofrida.”

Na mesma fala, citou desemprego, carestia e fome e afirmou que a Paraíba voltaria a sorrir.

A manifestação ocorreu em meio ao processo de afastamento político entre Lígia e João Azevêdo e foi acompanhada de movimentos que apontavam para a possibilidade de uma candidatura própria ao Governo.

Mais do que isso: Lígia já havia ensaiado uma candidatura ao Governo em 2018, antes de retirar seu nome e aceitar novamente a posição de vice, dessa vez na chapa de João Azevêdo.

Não há como afirmar que a história irá se repetir.

Mas política também é memória.

E um vice com projeto próprio sempre merece uma avaliação diferente de um vice sem pretensão majoritária.

A novela da vice revela muito

Outro problema da escolha está na própria novela que a antecedeu.

Lucas chegou ao período decisivo da formação da chapa sem o nome definido.

Adriano Galdino esteve na disputa e saiu.

Eduardo Carneiro ganhou força e depois perdeu espaço.

Outros nomes chegaram a ser discutidos.

A tenente-coronel Viviane, do PSB, chegou a ser apontada como uma das alternativas mais fortes para a vaga, antes de também deixar o caminho aberto para outra composição.

Só então Lígia ganhou força e acabou sendo escolhida.

A sucessão de nomes, idas e vindas e decisões aparentemente encaminhadas que posteriormente foram modificadas revela que a definição esteve longe de ser simples.

E isso produz uma impressão inevitável:

Lígia parece ter vencido mais pela capacidade de produzir consenso dentro do grupo do que pela capacidade de ampliar eleitoralmente a candidatura.

E são coisas muito diferentes.

E chegamos a Aguinaldo

É aqui que a escolha de Lígia fica ainda mais interessante.

Porque Lucas Ribeiro não está politicamente sozinho.

Por trás dele existe uma estrutura familiar e política comandada por seu tio, Aguinaldo Ribeiro.

E Aguinaldo não é apenas um deputado federal.

Em 2022, recebeu 135.001 votos, mais que o dobro da votação de Damião Feliciano.

Mais importante ainda: o debate sobre 2030 já está na mesa.

Em janeiro deste ano, Adriano Galdino afirmou publicamente que, caso Lucas seja eleito, seu grupo trabalharia com Aguinaldo Ribeiro como nome para o Governo em 2030.

Isso muda completamente a análise.

Porque a escolha do vice passa a ter duas eleições dentro dela:

2026 e 2030.

Quem Lucas está escolhendo para 2026?

Se Lucas tivesse absoluta liberdade para pensar exclusivamente na eleição de 2026, a pergunta seria:

qual é o melhor nome para me ajudar a vencer?

Mas se existe uma preocupação permanente com a sucessão de 2030, a pergunta passa a ser outra:

qual é o melhor nome para me ajudar a vencer sem criar um novo concorrente ao projeto dos Ribeiro?

Essa diferença é gigantesca.

E é aqui que a escolha de Lígia ganha outra interpretação.

Lígia possui experiência.

Possui história.

Possui trânsito político.

Possui um partido importante.

Mas não chega à chapa com um projeto eleitoral próprio para o Governo em 2030.

Nesse aspecto, é uma escolha muito mais confortável para quem pensa na sucessão.

E é justamente por isso que surge o questionamento mais incômodo de toda essa história:

Lucas Ribeiro está escolhendo o vice que considera melhor para sua eleição ou o vice que melhor se encaixa no projeto político de seu grupo para 2030?

Lucas corre o risco de parecer um governador tutelado

Essa talvez seja a maior fragilidade política da operação.

Lucas Ribeiro precisa construir uma imagem de liderança própria.

Ele é jovem, tem pouca experiência acumulada em comparação com os principais caciques da política paraibana e chegou ao Governo depois de uma trajetória relativamente curta no Executivo.

Isso não significa falta de capacidade.

Mas significa que sua candidatura precisa transmitir autonomia.

E essa autonomia fica sob questionamento quando seu principal articulador político é justamente seu tio, um dos políticos mais experientes do Estado, e quando o próprio grupo já possui um roteiro sucessório para 2030.

A sensação que pode ficar para o eleitor é a de que Lucas seria o governador de 2026, mas não necessariamente o dono do projeto político.

O projeto seria dos Ribeiro.

Lucas seria o executor.

Aguinaldo, o próximo capítulo.

E isso é perigoso para quem precisa convencer o eleitor de que está pronto para governar sozinho.

A escolha pode ter resolvido um problema e criado outro

É possível que o grupo tenha enxergado em Lígia uma solução elegante.

Uma mulher.

Experiente.

Com dois mandatos como vice.

Integrada à federação União Progressistas.

Com vínculos políticos conhecidos.

E capaz de ajudar Lucas a responder ao discurso de que ele é jovem e inexperiente.

Nesse aspecto, a escolha faz sentido.

Mas uma eleição não é uma reunião de condomínio.

Não basta encontrar o nome que incomoda menos os aliados.

É preciso encontrar o nome que agrega mais votos.

E, nesse ponto, a escolha parece equivocada.

O maior erro pode estar no mapa

Lucas Ribeiro precisava olhar para o mapa da Paraíba e perguntar:

onde Cícero Lucena é forte?

João Pessoa.

Onde Lucas já possui uma base familiar consolidada?

Campina Grande.

Onde está a maior concentração de eleitores?

João Pessoa.

Qual território precisava ser conquistado?

A capital e sua região metropolitana.

Então por que escolher uma vice cuja principal identidade política é justamente Campina Grande?

Essa é a pergunta que fica.

Porque, em política, não basta saber onde você é forte.

É preciso saber onde você precisa crescer.

E talvez esse tenha sido o erro estratégico do grupo Ribeiro.

Uma escolha confortável, mas pouco ousada

Lígia Feliciano não é uma escolha absurda.

É uma escolha defensável.

Ela possui experiência, conhece o Governo, tem trânsito partidário e pode ajudar a blindar Lucas contra o discurso de inexperiência.

Mas uma escolha defensável não é necessariamente uma escolha eleitoralmente inteligente.

O grupo Ribeiro teve diante de si uma oportunidade de fazer algo diferente: utilizar a vice para abrir uma nova frente eleitoral, especialmente em João Pessoa.

Preferiu o caminho mais confortável.

Preferiu uma solução conhecida.

Preferiu uma composição que reduz conflitos internos.

E talvez tenha esquecido uma regra elementar das eleições:

vice não deve ser escolhido apenas para não criar problemas depois da eleição. Deve ser escolhido para ajudar a ganhar antes dela.

O fantasma de 2030

No fim, talvez seja impossível separar a escolha de Lígia da sombra de Aguinaldo Ribeiro.

Se o projeto já está desenhado — Lucas em 2026 e Aguinaldo em 2030 —, então qualquer nome escolhido para a vice precisa ser analisado também sob esse prisma.

E isso cria um paradoxo.

Quanto mais o grupo protege o projeto de Aguinaldo para 2030, maior o risco de reduzir a autonomia política de Lucas em 2026.

E quanto mais Lucas demonstrar que suas decisões são condicionadas pelo projeto familiar, maior será o desafio para convencer o eleitor de que ele é, de fato, o líder de uma nova geração.

Lucas precisa ser mais do que o sobrinho de Aguinaldo.

Precisa ser o governador que escolhe.

Que decide.

Que arrisca.

Que monta sua própria estratégia.

E, principalmente, que pensa primeiro na eleição que está diante dele.

Porque 2030 ainda está a quatro anos de distância.

2026 está acontecendo agora.

E, na minha leitura, ao escolher Lígia Feliciano, o grupo Ribeiro pode ter feito uma escolha muito boa para a arquitetura interna do poder — mas uma escolha ruim para a geografia eleitoral da disputa.

A chapa ficou mais confortável dentro de casa. O problema é que eleição se ganha fora dela.

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