Existe uma pergunta que a eleição para o Governo da Paraíba está impondo neste momento:
afinal, onde está o eleitor paraibano?
A pergunta não é provocação gratuita.
É uma questão legítima diante de quatro pesquisas registradas na Justiça Eleitoral que apresentam cenários muito diferentes para uma mesma disputa.
De um lado, há uma convergência importante: Lucas Ribeiro aparece na liderança nos quatro levantamentos.
Mas, quando olhamos para a disputa pelo segundo lugar, a fotografia muda completamente.
E é aí que começa o problema.
QUATRO PESQUISAS, QUATRO CENÁRIOS
Vamos colocar os números lado a lado:
| Instituto | Lucas Ribeiro | Cícero Lucena | Efraim Filho |
|---|---|---|---|
| Quaest | 38% | 19% | 18% |
| Índice | 33,6% | 32,2% | 18,5% |
| AtlasIntel | 42,4% | 19,8% | 30,9% |
| Anova | 43,4% | 18,2% | 12,1% |
Os números da Quaest foram coletados entre 21 e 24 de agosto, com 804 entrevistados e margem de erro de três pontos percentuais.
O Índice ouviu 2.000 eleitores entre 20 e 22 de agosto, com margem de erro de 2,2 pontos.
A Atlas, por sua vez, colocou Efraim em impressionantes 30,9%, enquanto a Anova, poucos dias depois, apresentou o senador com apenas 12,1%. Os dois levantamentos colocam Lucas na casa dos 42% a 43%.
E aqui está o ponto que merece uma discussão séria:
como Lucas consegue aparecer praticamente no mesmo patamar nas duas pesquisas, enquanto Efraim oscila quase 19 pontos?
30,9% CONTRA 12,1%
Vamos parar um minuto nesse número.
A Atlas apresenta Efraim com:
30,9%.
A Anova apresenta:
12,1%.
Diferença:
18,8 pontos percentuais.
Isso não é uma pequena oscilação.
Não é uma diferença de dois ou três pontos.
Não é algo que possa ser colocado simplesmente na conta da margem de erro.
A margem de erro existe para dimensionar a incerteza amostral de uma pesquisa. Ela não significa que qualquer resultado possa variar quase 20 pontos entre levantamentos.
Portanto, precisamos fazer uma pergunta desconfortável:
o eleitor mudou radicalmente de opinião em tão pouco tempo ou as duas pesquisas estão capturando realidades eleitorais muito diferentes?
E NÃO É SÓ EFRAIM
Seria um erro transformar toda a discussão em uma comparação entre Atlas e Anova.
Porque existe um terceiro elemento ainda mais intrigante:
a pesquisa Índice.
Realizada entre 20 e 22 de agosto, ela colocou Lucas Ribeiro com 33,6%, Cícero Lucena com 32,2% e Efraim Filho com 18,5%. A diferença entre Lucas e Cícero foi de apenas 1,4 ponto, dentro da margem de erro de 2,2 pontos.
Ou seja:
na pesquisa Índice, Lucas e Cícero estavam tecnicamente empatados na liderança.
Já na Atlas, Lucas tinha 42,4%, contra 19,8% de Cícero.
E na Anova, Lucas apareceu com 43,4%, contra 18,2% de Cícero.
Isso significa que, dependendo da pesquisa escolhida, Cícero pode ser interpretado de três maneiras completamente diferentes:
líder técnico da eleição.
terceiro colocado.
Ou segundo colocado, mas muito distante do primeiro.
Isso não é uma diferença meramente numérica.
É uma mudança completa na narrativa eleitoral.
A QUARTA PESQUISA TORNA A HISTÓRIA AINDA MAIS INTERESSANTE
A Quaest, divulgada em 25 de agosto, apresentou Lucas com 38%, Cícero com 19% e Efraim com 18%. A pesquisa ouviu 804 pessoas entre 21 e 24 de agosto e tem margem de erro de três pontos.
E aqui surge outro dado interessante.
A Quaest está muito mais próxima da Atlas e da Anova em relação a Cícero e Efraim do que do Índice.
Temos, portanto:
Índice: Cícero 32,2% — Efraim 18,5%.
Quaest: Cícero 19% — Efraim 18%.
Atlas: Cícero 19,8% — Efraim 30,9%.
Anova: Cícero 18,2% — Efraim 12,1%.
Quatro pesquisas.
Quatro fotografias.
E uma eleição que parece mudar dependendo da lente.
MAS HÁ UMA CONVERGÊNCIA
É importante fazer justiça aos dados.
Existe um ponto de convergência bastante claro:
Lucas Ribeiro lidera os quatro levantamentos.
Ele aparece com:
33,6% no Índice;
38% na Quaest;
42,4% na Atlas;
43,4% na Anova.
Isso é relevante.
A diferença entre o menor e o maior resultado de Lucas é de 9,8 pontos.
Não é irrelevante, mas é muito menor do que a diferença observada entre Efraim nas pesquisas Atlas e Anova.
Isso sugere que existe uma percepção mais consistente de liderança de Lucas.
A grande incógnita está na distribuição dos votos atrás dele.
A ELEIÇÃO PODE ESTAR MAIS DEFINIDA NO PRIMEIRO LUGAR DO QUE NO SEGUNDO
Talvez essa seja a conclusão mais interessante que podemos tirar hoje.
As quatro pesquisas parecem apontar para uma liderança de Lucas.
Mas não conseguem produzir uma resposta minimamente uniforme para a pergunta:
quem está efetivamente em segundo lugar?
E isso é fundamental.
Porque não estamos falando apenas de uma disputa por posição.
Estamos falando de quem poderá chegar ao segundo turno.
Na pesquisa Índice, a disputa seria praticamente Lucas x Cícero.
Na Atlas, seria Lucas x Efraim.
Na Quaest, existe um empate entre Cícero e Efraim pelo segundo lugar, considerando a margem de erro.
Na Anova, Cícero aparece à frente de Efraim, mas os dois estão muito abaixo de Lucas.
Portanto, dependendo da pesquisa, temos três desenhos diferentes para a disputa pelo segundo turno.
“É A METODOLOGIA”
É provável que alguém diga:
“Mas pesquisas diferentes têm metodologias diferentes.”
E isso é verdade.
E precisa ser dito.
O Índice, por exemplo, informa ter utilizado amostragem aleatória simples e por conglomerados em três estágios, com municípios e setores censitários selecionados por probabilidade proporcional ao tamanho e cotas de sexo, idade, renda e escolaridade. Foram 2.000 entrevistas presenciais em todo o estado.
A Atlas utiliza uma metodologia diferente.
A Quaest tem outro desenho.
A Anova também possui suas características próprias.
E é exatamente por isso que precisamos discutir metodologia.
Porque “metodologias diferentes” não pode ser uma frase usada para encerrar a discussão.
Ela deveria ser o começo dela.
O QUE EXPLICA 18,8 PONTOS?
Essa é a pergunta que permanece sem resposta.
Se Atlas e Anova chegam a resultados tão diferentes para Efraim, precisamos saber:
- A composição regional das amostras foi muito diferente?
- A distribuição entre interior e Grande João Pessoa foi diferente?
- O perfil socioeconômico dos entrevistados foi diferente?
- O modo de entrevista influenciou o resultado?
- A ordem dos candidatos alterou as respostas?
- O período de coleta capturou algum fato político relevante?
- Houve diferenças na formulação das perguntas?
- Ou estamos diante de um eleitorado muito mais volátil do que imaginamos?
Essas são perguntas técnicas.
E merecem respostas técnicas.
PORQUE A MARGEM DE ERRO NÃO RESOLVE ESSA CONTA
É importante insistir nisso.
Se uma pesquisa aponta 30,9% e outra 12,1%, não podemos simplesmente dizer:
“É a margem de erro.”
Não é.
A margem de erro não foi criada para justificar uma diferença de 18,8 pontos entre levantamentos.
Ela mede a incerteza estatística de uma determinada amostra.
Portanto, se há uma diferença dessa dimensão, precisamos procurar outras explicações.
Metodologia.
Amostra.
Momento.
Perfil do eleitor.
Forma de abordagem.
Ou, eventualmente, um eleitorado em movimento.
Mas precisamos procurar.
E HÁ UM RISCO POLÍTICO NESSA HISTÓRIA
Pesquisa eleitoral não é apenas fotografia.
Ela também produz comportamento.
Um candidato que aparece com 31% transmite força.
Um candidato que aparece com 12% transmite dificuldade.
Um candidato que aparece empatado tecnicamente na liderança transmite uma realidade completamente diferente.
Isso influencia militância.
Influência doadores.
Influência alianças.
Influencia cobertura jornalística.
E pode influenciar até o próprio eleitor.
Por isso, pesquisas precisam ser tratadas com responsabilidade.
Não podem ser usadas como certificado de vitória.
Muito menos como instrumento para desqualificar adversários.
A PERGUNTA CORRETA NÃO É “QUAL PESQUISA ESTÁ CERTA?”
Talvez essa seja a grande armadilha.
Escolher a pesquisa que confirma aquilo que já queremos acreditar é fácil.
Difícil é olhar para as quatro e admitir:
há algo que ainda não conseguimos explicar.
Se a Atlas estiver certa, Efraim é um candidato muito competitivo.
Se a Anova estiver certa, Efraim está muito distante da disputa.
Se o Índice estiver certo, Cícero está praticamente empatado com Lucas na liderança.
Se a Quaest estiver certa, temos uma disputa mais equilibrada pelo segundo lugar, mas com Lucas claramente na frente.
Não podem ser simultaneamente quatro fotografias exatas da mesma realidade.
Mas todas podem conter alguma informação sobre ela.
O QUE FAZER, ENTÃO?
A resposta é simples:
não olhar uma pesquisa isoladamente.
É preciso acompanhar a série.
Comparar institutos.
Observar tendências.
Analisar as metodologias.
Verificar os períodos de campo.
Olhar as pesquisas seguintes.
E, sobretudo, não transformar um número em verdade absoluta.
Porque uma eleição não é uma planilha.
É um organismo vivo.
E o eleitor não é obrigado a permanecer no mesmo lugar em que estava quando respondeu a uma pesquisa.
MAS HÁ UMA COISA QUE O ELEITOR PODE EXIGIR
Transparência.
Se uma pesquisa coloca um candidato com 30,9% e outra, poucos dias depois, com 12,1%, o eleitor tem todo o direito de perguntar:
por quê?
Se uma pesquisa coloca Cícero com 32,2% e outra, praticamente na mesma semana, com 18,2%, a pergunta também é legítima:
por quê?
E se Lucas aparece entre 33,6% e 43,4% nos quatro levantamentos, também precisamos entender por que sua variação é diferente daquela observada entre os demais candidatos.
Questionar não significa acusar.
Comparar não significa desacreditar.
Desconfiar de números discrepantes é parte do processo democrático.
NO FIM, AINDA HÁ MAIS PERGUNTAS DO QUE RESPOSTAS
Hoje, uma coisa parece relativamente clara:
Lucas Ribeiro lidera os quatro levantamentos.
Mas a dimensão dessa liderança ainda está sujeita a uma enorme variação.
E, principalmente, a disputa pelo segundo lugar permanece completamente aberta — pelo menos quando olhamos para as pesquisas disponíveis.
Efraim pode ter 30,9%.
Pode ter 18,5%.
Pode ter 18%.
Pode ter 12,1%.
Cícero pode estar com 32,2%.
Pode estar com 19,8%.
Pode estar com 19%.
Pode estar com 18,2%.
Esses números não são detalhes.
Eles contam histórias eleitorais completamente diferentes.
E é exatamente por isso que, neste momento, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quem está ganhando?”
Mas sim:
“Por que quatro pesquisas, feitas em períodos tão próximos, estão enxergando quatro eleições tão diferentes?”
Enquanto essa pergunta não for respondida, qualquer conclusão definitiva sobre a disputa pelo segundo lugar será, no mínimo, precipitada.
Porque talvez a eleição esteja mudando.
Talvez as metodologias estejam capturando públicos diferentes.
Talvez exista um problema de amostragem.
Ou talvez simplesmente ainda seja cedo demais para saber.
Mas uma coisa é certa:
18,8 pontos de diferença não podem passar despercebidos.
O eleitor paraibano merece entender essa discrepância.
E quem produz, divulga e interpreta pesquisas também deveria ajudar a explicá-la.
Bora Pensar.





























