Entre o moralismo e a vulgaridade: Queiroga repete o padrão chulo do bolsonarismo e rebaixa o debate político na Paraíba

A declaração do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga, pré-candidato ao Senado pelo PL na Paraíba, não foi apenas inadequada — foi sintomática. Ao recorrer a uma analogia de conotação sexual para tratar da formação de chapa, ele rebaixou o debate político a um nível vulgar e incompatível com a responsabilidade institucional que um cargo no Senado exige.

A tentativa de usar a expressão como metáfora para “não ter pressa” revelou mais do que uma escolha infeliz de palavras. Expôs um padrão retórico que marcou a ala mais radical do bolsonarismo: a aposta em frases de choque, carregadas de apelo sexual ou agressivo, como forma de sinalizar identidade ideológica e fidelidade a um determinado campo político.

O alinhamento não foi apenas programático, mas também discursivo. Durante o governo de Jair Bolsonaro, tornaram-se frequentes declarações de teor sexual ou misógino que chocaram o país e repercutiram internacionalmente. O então presidente afirmou a uma deputada que “não a estupraria porque ela não merecia”, naturalizando a violência sexual como recurso retórico. Em outra ocasião, declarou que teve uma filha mulher após uma “fraquejada”, sugerindo que o nascimento de uma menina seria sinal de falha. Houve ainda o episódio em que relatou ter “pintado um clima” ao comentar sobre adolescentes venezuelanas, fala que gerou forte reação pública pela inadequação e insinuação envolvida.

Esses exemplos não foram deslizes isolados, mas parte de um estilo político que misturava agressividade, sexualização do discurso e desprezo por protocolos mínimos de civilidade. Quando Queiroga adotou linguagem semelhante, reforçou essa herança retórica. Para alguém que se apresentava como defensor de valores conservadores e da moral tradicional, a contradição tornou-se evidente: o discurso dos “bons costumes” conviveu com expressões chulas e insinuações impróprias.

A crítica, portanto, não se limitava ao mau gosto da frase. Ela apontava para uma cultura política que normalizou o rebaixamento do debate público. Ao disputar uma vaga no Senado, esperava-se postura compatível com a liturgia do cargo — equilíbrio, sobriedade e respeito institucional. A opção por uma metáfora sexual escancarou não apenas uma escolha de linguagem, mas uma identidade política moldada pelo radicalismo e pela provocação como método.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Categorias

Publicidade

Assine nossa newsletter

Publicidade

Outras notícias